Diante de poucos dias de atraso menstrual, como confirmar precocemente o diagnóstico de gravidez? |
Clinicamente, o toque vaginal combinado constitui o recurso de eleição para diagnóstico de gravidez incipiente ou precoce. Percebe-se amolecimento cervical, do istmo e do corpo uterino, associado ao aumento do volume do órgão. Laboratorialmente, a pesquisa sangüínea da fração beta do hormônio gonadotrofina coriônica é detectada precocemente, antes mesmo da nidificação, podendo ser rastreada até cerca de dois dias antes da data prevista para menstruação. Seus valores duplicam a cada 48-72 horas, na gestação normal. A ultra-sonografia transvaginal de boa resolução visualiza o saco gestacional bem implantado a partir da quarta semana e meia de gestação.
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| Quando devemos iniciar o pré-natal e qual o intervalo de tempo entre as consultas? |
Idealmente, os cuidados deveriam ser iniciados no período pré-concepcional, com atenção às condições nutricionais, emocionais e clínicas da mulher. Diagnosticada a gravidez, a precocidade do início da assistência pré-natal melhora o prognóstico materno e do concepto. Na gestação de baixo risco, recomenda-se que os retornos sejam mensais até 28 semanas, quinzenais entre 28 e 36 e semanais a partir de 36 semanas até o parto.
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| Qual regra prática é utilizada para cálculo da data provável do parto (DPP), levando-se em conta a data da última menstruação (DUM), referida pela gestante? |
Temos nos valido da regra de Naegele: somamos 7 à data do primeiro dia da DUM e subtraímos 3 em relação ao mês da DUM. Quando, ao somarmos 7 ocorrer mudança de mês, a subtração será de 2 no cálculo do mês. A DPP estabelece, segundo esta regra, quando a gestação completa 40 semanas (9 meses solares, 10 meses lunares ou 280 dias a partir da DUM).
Exemplos: DUM = 10/07 Cálculo do dia da data provável do parto: 10+7 – dia 17 Cálculo do mês da data provável do parto: 7-3 – mês 4 Data provável do parto: 17/04
DUM = 29/07 Cálculo do dia da data provável do parto: 29+7 – dia 05 (houve mudança de mês) Cálculo do mês da data provável do parto: 7-2 – mês 5 Data provável do parto: 05/05
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| Quais são os limites de idade gestacional para a definição de abortamento, prematuro, termo e gravidez prolongada? |
Abortamento É a eliminação de produto conceptual inviável de até 22 semanas completas de gestação, com peso de até 500 gramas e comprimento cabeça-nádega de no máximo 16,5 centímetros.
Prematuro Caracteriza o concepto antes de 37 semanas completas de gestação, independentemente de seu peso.
Termo da gestação Compreende o período de 37 semanas completas até antes de 42 semanas.
Gravidez prolongada Classicamente, denomina-se gravidez prolongada ao completar-se 42 semanas de idade gestacional. Na atualidade existe tendência a considerá-la após 41 semanas, pois o prognóstico perinatal piora progressivamente após essa data.
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| Como realizar a medida da altura uterina e qual regra prática pode ser utilizada para o acompanhamento de sua evolução durante o pré-natal? |
A altura uterina (AU) é medida estendendo-se fita métrica a partir da borda púbica e delimitada, sem compressão, até o fundo uterino, com a borda cubital da mão esquerda. A gestante deve estar em decúbito dorsal horizontal, com os braços ao longo do corpo e corrige-se a dextro-rotação, se presente.
Existem diversas regras de acompanhamento da AU durante o pré-natal. Valorizamos, na prática, que o útero aumenta 4 centímetros por mês solar de prenhez. O órgão torna-se palpável com 3 meses, sendo evidenciado poucos centímetros acima da sínfise púbica.
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| Em que época a gestante começa a sentir os movimentos ativos do concepto? |
A gestante sente os movimentos do feto em torno do quarto mês e meio, quando grávida pela primeira vez (primigestas) e mais cedo, quando multigestas. Esta percepção depende da sensibilidade individual de cada gestante. A presença de obesidade e polidrâmnio (líquido amniótico anormalmente aumentado) podem dificultar a percepção.
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| A partir de qual idade gestacional é possível auscultar os batimentos cardíacos fetais e qual é a freqüência considerada normal? |
Com o estetoscópio de Pinard, os batimentos do coração fetal podem ser ouvidos, via de regra, depois do quarto mês e meio de gestação. Ao sonar Doppler tornam-se audíveis facilmente a partir do momento que o útero é palpável no hipogástrio (em torno do terceiro mês). À ultra-sonografia, os batimentos cardíacos fetais são observados após o embrião atingir 5 milímetros de comprimento (sexta semana). A freqüência dos batimentos cardíacos fetais é variável de acordo com a idade gestacional, situando-se na faixa de 110-160 batimentos por minuto.
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| Em qual localização do abdome materno devemos proceder à ausculta dos batimentos cardíacos fetais (foco)? |
O foco é o local de melhor audibilidade dos batimentos cardíacos fetais. Sua localização varia de acordo com a idade gestacional e com a apresentação fetal. Na gestação de terceiro trimestre, admite-se que está localizado na área mais próxima do pólo cefálico, no lado do dorso fetal. Nas apresentações cefálicas, abaixo da latitude umbilical; nas pélvicas, acima.
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| Como deve ser feita a medida da pressão arterial da grávida, durante o pré-natal? |
A medida da pressão arterial é rotina obrigatória em todas as consultas pré-natais. Deve ser feita, no ambulatório, com a paciente sentada, aplicando o aparelho com manguito de 13 centímetros no membro superior direito e mantido este elevado na altura do coração. Gestante em repouso lateral esquerdo, no momento da medida, deverá estar posicionada em decúbito dorsal horizontal. Considerar a pressão diastólica pelo 5º ruído de Korotkoff, correspondente ao desaparecimento da bulha.
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| Quais exames laboratoriais são solicitados, rotineiramente, na primeira consulta pré-natal? |
Os exames laboratoriais solicitados para a rotina pré-natal básica variam muito, principalmente de acordo com a prevalência de doenças endêmicas para determinada população e os custos envolvidos. A maioria dos serviços recomenda uma rotina ampliada com os seguintes exames:
- determinação do grupo sangüíneo (ABO e Rh);
- hemograma;
- glicemia de jejum e teste de tolerância oral à glicose simplificado com 50 gramas (após 24 semanas);
- sorologias: lues, rubéola, toxoplasmose, hepatite B (HbsAg), hepatite C, citomegalovírus e HIV;
- urina tipo I e urocultura com antibiograma, se necessário;
- protoparasitológico de fezes;
- citologia cérvico-vaginal oncológica;
- ultra-sonografias.
Com o surgimento de intercorrências, outros exames específicos podem ser necessários.
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| Como deve ser feito o rastreamento para diabetes mellitus gestacional durante o pré-natal? |
A glicemia de jejum deve ser solicitada na primeira consulta pré-natal. Mesmo diante de valores inferiores a 85 mg/dL (considerados normais), recomenda-se o rastreamento universal com a realização de teste de sobrecarga oral de 50 gramas em torno da 24ª semana (valores inferiores a 130 mg/dL são considerados normais). Se a glicemia de jejum estiver entre 86 e 109 mg/dL, ou se o teste de sobrecarga for superior a 130 mg/DL, indicamos a curva glicêmica de 3 horas com sobrecarga de 100 gramas de glicose. Os limites normais adotados para a curva glicêmica são os seguintes:
- jejum = 95 mg/dL;
- 1ª hora = 180 mg/dL;
- 2ª hora = 155 mg/dL;
- 3ª hora = 140 mg/dL.
Vale salientar que o apuro de duas dosagens de glicemia de jejum com valores superiores a 110 mg/dL já indicam o diagnóstico, sem necessidade de sobrecarga ou curva glicêmica.
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| Qual a importância, quando solicitar e como interpretar a bacteriúria assintomática da gravidez? |
A bacteriúria assintomática é caracterizada pela cultura urinária com mais de 100.000 unidades formadoras de colônias por mililitro de urina, na ausência de sintomas. Deve ser pesquisada na primeira consulta pré-natal, podendo ser repetida a cada trimestre, principalmente nos grupos de maior risco para a infecção urinária. É detectada em cerca de 10% das gestações e, quando não tratada, determina o aparecimento de infecção urinária clínica em cerca de 30% a 40% dos casos. Deve, portanto, sempre ser tratada.
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| Em quais idades gestacionais devemos solicitar o exame ultra-sonográfico para acompanhamento pré-natal? |
Em população de baixo risco são recomendadas as seguintes avaliações:
- entre 11ª - 14ª semana;
- entre 23ª - 25ª semana;
- entre 30ª - 34ª semana.
Quando for possível apenas a realização de um exame ultra-sonográfico durante todo o período pré-natal, recomenda-se que este seja feito em torno da 23ª e da 25ª semana, por permitir boa avaliação da idade gestacional e da morfologia fetal.
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| Quais os principais parâmetros que são avaliados na ultra-sonografia morfológica de primeiro trimestre, para rastreamento de aneuploidias? |
Esta ultra-sonografia deve ser realizada entre 11 e 14 semanas de gestação, avaliando principalmente a translucência nucal (valor normal até 2,5 mm), o osso nasal (presente na normalidade) e a Dopplerfluxometria do ducto venoso (revelando onda A positiva fisiológica).
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| Quando devemos solicitar cardiotocografia anteparto, exame de Dopplerfluxometria e perfil biofísico fetal durante o acompanhamento pré-natal? |
Esses exames não fazem parte da rotina pré-natal. Eles compõem propedêutica especializada indicada em casos de alto risco para insuficiência placentária (como nas síndromes hipertensivas, diabetes mellitus grave, restrição de crescimento intra-uterino, gestação prolongada, entre outros), diante de diminuição da movimentação fetal e em outras intercorrências clínicas ou obstétricas em que se impõe a vigilância da vitabilidade fetal.
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| Quais são as principais indicações para exame de ecocardiografia fetal e em que idade gestacional deve ser solicitado? |
A melhor idade gestacional para realização deste exame é em torno da 24ª semana de gestação. Suas principais indicações são diabetes melIitus, idade materna avançada, história pessoal ou familiar de cardiopatia, gemelidade, infecções congênitas, exposição materna a substâncias potencialmente teratogênicas para o coração fetal (como álcool, antiepiléticos, lítio e radiação ionizante), testes de rastreamento de malformações e aneuploidias alterados (como testes bioquímicos, translucência nucal, ultra-sonografia morfológica) e nos casos de alterações do ritmo cardíaco fetal.
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| Quais são os testes bioquímicos úteis como marcadores de aneuploidias fetais no primeiro trimestre da gestação? |
Atualmente, os dois marcadores bioquímicos mais importantes são a dosagem da fração beta do hormônio gonadotrofina coriônica (betaHCG) e a proteína plasmática A associada à gravidez (PAPP-A). No primeiro trimestre, em gestações normais, a concentração sérica materna de betaHCG aumenta gradualmente, enquanto que a concentração da PAPP-A declina. A determinação de outros marcadores, como alfafetoproteína, estriol não conjugado e acetilcolinesterase, podem ser úteis em casos selecionados.
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| Quais são os métodos invasivos mais utilizados para exame citogenético fetal? Quais as suas principais indicações e em quais idades gestacionais podem ser realizados? |
Os principais são a biópsia de vilo corial (entre a 11ª e 14ª semana), amniocentese (por volta de 16 semanas) e a cordocentese (a partir da 18ª semana). As principais indicações dos dois primeiros métodos são a idade materna avançada (maior ou igual a 35 anos), antecedentes de cromossomopatias, genitores com translocações balanceadas, rastreamento positivo pela ultra-sonografia ou métodos bioquímicos, ansiedade dos pais. A cordocentese é mais restrita aos casos que necessitam investigação hematológica, microbiológica e tratamento fetal.
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| Como devo orientar a dieta mais adequada para a grávida? |
Recomenda-se dieta básica de 2.400 a 2.600 calorias por dia, fracionada em seis refeições ao longo do dia. No almoço e jantar devem ser consumidos cerca de 50% do total dessas calorias. Devemos estimular dieta saudável e variada, adaptada, na medida do possível, aos gostos individuais da gestante. Especial atenção deve ser dada às gestantes com hábitos alimentares muito restritivos.
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| Qual o ganho de peso considerado ideal para a gestante, durante toda a gravidez?Qual o ganho de peso considerado ideal para a gestante, durante toda a gravidez? |
A gestante eutrófica (com índice de massa corpórea – IMC – pré-gestacional entre 20 e 25 kg/m2) deve ter ganho ponderal de 9 a 13 quilos. Às desnutridas (IMC abaixo de 20 kg/m2), deve ser acrescido o ganho de peso necessário para se tornarem eutróficas. As obesas moderadas (IMC entre 25 e 28 kg/m2) podem adquirir ganho ponderal de cerca de 7 quilos. Para aquelas com obesidade acentuada (IMC acima de 28 kg/m2) é recomendado ganho ponderal mínimo de poucos quilos ou até mesmo a manutenção do peso com dietas balanceadas e supervisionadas.
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| Como deve ser orientada a suplementação de vitaminas na gravidez? |
A suplementação sistemática de ácido fólico é preconizada em todas as mulheres no período periconcepcional, para prevenir a ocorrência de defeitos do tubo neural no concepto (0,4 mg/dia naquelas sem antecedentes desse tipo de malformação e 4 mg/dia diante de antecedente positivo). As que mais necessitam dessa suplementação preventiva são as adolescentes, tabagistas e usuárias de alguns medicamentos, como anticoncepcionais hormonais, anticonvulsivantes e anticoagulantes. Após o terceiro mês de gestação, o uso de polivitamínicos, em doses habituais, é benéfico, com especial atenção para ferro, ácido fólico, vitamina C, zinco e cálcio. A suplementação excessiva (como de vitamina A) pode ser maléfica, não sendo, portanto, recomendada.
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| Quais vacinas podem ou devem ser ministradas durante a gravidez? |
A vacinação antitetânica é rotineiramente recomendada durante a gravidez, tanto como imunização primária, quanto como reforço em mulheres previamente vacinadas. É aconselhável iniciá-la após o primeiro trimestre da gestação; são três doses intramusculares, sendo a primeira e a segunda ministradas com intervalo de um ou dois meses e a terceira com intervalo de seis meses após a segunda. A manutenção é realizada com dose única a cada dez anos. É recomendada dose única de reforço no quarto mês, em gestantes que receberam a última dose há mais de cinco anos. A gravidez também é compatível com as seguintes vacinas, se forem necessárias: influenza A e B, raiva, hepatite B, pneumococo e meningococo.
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| Como orientar a prática de atividade física durante a gestação? |
A atividade física rotineira é permitida na gravidez, exceto quando sobrevier alguma intercorrência que imponha repouso. O exercício físico excessivo e extenuante deve ser evitado. A gestante deve ser orientada a adaptar a atividade física que já exercia à sua condição de grávida. O exercício físico moderado não é prejudicial, mas deve ser feito com supervisão de instrutores especializados. A caminhada leve pode ser estimulada àquelas que não praticavam exercício de forma rotineira antes da gravidez.
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| Há alguma restrição para atividade sexual durante a gestação? |
Normalmente a atividade sexual é liberada durante a gravidez. O profissional que acompanha o pré-natal deve estar apto ao aconselhamento e educação sexual básicos, devendo encaminhar a gestante para avaliação específica quando necessário. A atividade sexual é contra-indicada nos casos de ameaça de aborto (na vigência do sangramento), diante de amniorrexe prematura, placenta prévia, cérvico-dilatação precoce e no risco de parto prematuro. Recomendada a abstinência, a compreensão, por parte do casal, de que “exercer a sexualidade” é muito mais amplo do que o coito vaginal, costuma disponibilizar alternativas que auxiliam na união familiar.
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| Quais são as principais orientações que devem ser transmitidas à gestante em relação ao preparo das mamas para a amamentação? |
O exame clínico detalhado das mamas é uma rotina pré-natal. Desde o início, informações e orientações básicas de anatomia e fisiologia das mamas devem ser fornecidas à gestante, como forma de tranqüilizá-la e de estimular o aleitamento natural. Dependendo do tipo de papila (invertidas, por exemplo), exercícios preparatórios e técnica de amamentação devem ser discutidos. Mesmo diante de papilas normais (protrusas), é comum a recomendação de exercícios de tração papilar, bem como promover atrito ou fricção da pele, nesta área, com esponja ou toalha, visando obter pele mais resistente. A lubrificação das papilas e aréolas não deve ser estimulada, pois tende a tornar a pele mais fina e delicada.
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| Quais orientações básicas devem ser oferecidas às gestantes em relação aos cuidados com a pele, unhas e cabelos? |
A gestante deve ser mais cautelosa na prática da sauna, principalmente em relação ao risco de hipotensão e lipotímia. Dar preferência ao uso de sabonetes de pH neutro e de ação suave. Utilização de massagens suaves com cremes hidratantes costuma ser benéfica na prevenção de estrias. Fotoprotetores devem ser estimulados na prevenção da hiperpigmentação, com fator de proteção número 15. O uso de xampus e condicionadores é liberado. Tinturas capilares à base de enxofre e amoníaco devem ser evitadas, bem como mistura de produtos com princípios ativos variados e mal estudados durante a gestação. Cosméticos para unhas (esmaltes e removedores de cutícula e de esmalte) não possuem contra-indicação.
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| Quais os principais cuidados com a higiene bucal durante a gestação? |
Medidas preventivas são muito importantes, pois a grávida passa por mudanças de hábitos alimentares, diminuição no pH salivar, aumento da proliferação de germes bucais e facilidade para gengivites. Deve ser orientada higiene adequada, com escovações diárias e freqüentes, além da diminuição da ingestão de doces e carboidratos. A supervisão odontológica com profissional experiente é sempre estimulada. O tratamento dentário habitual é liberado durante a gravidez, evitando-se anestesia com vasoconstrictores e exposições a radiações sem proteção adequada. A parceria profissional entre obstetra e dentista propiciará os melhores resultados na escolha de medicamentos necessários, como analgésicos e antibióticos.
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| Como o tabagismo e o etilismo podem prejudicar a evolução da gravidez? |
O tabagismo e a ingestão alcoólica são causas de várias complicações na gestação. É clássica a associação de tabagismo com aparecimento de baixo peso ao nascer e prematuridade. O abuso do álcool pode determinar a síndrome alcoólica fetal, com malformações, baixo peso e atraso no desenvolvimento do recém-nascido. Esses hábitos devem ser suspensos por completo durante a gestação
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