O que é dismenorréia? |
Etimologicamente dismenorréia significa: dis=dificuldade, menorréia=menstruação, porém, na prática clínica diária, o termo é utilizado para definir a dor em hipogástrio, de forte intensidade, em cólica, durante o fluxo menstrual. Alguns autores, puristas, preferem, para definir este sintoma, o termo algomenorréia (algo=dor).
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| Como se define a síndrome dismenorrêica? |
Síndrome dismenorrêica é caracterizada pela associação de sintomas gerais à cólica menstrual. Não é infreqüente, mormente nos casos mais acentuados, a queixa de sudorese, palidez, náuseas, vômitos, lipotímia ou cefaléia associada à queixa álgica.
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| Como a dismenorréia é classificada? |
A dismenorréia é classificada em:
- Primária: quando o desconforto não está relacionado com afecção pélvica, normalmente surgindo no início da vida reprodutiva;
- Secundária: quando está relacionada a moléstia pélvica e a queixa inicia-se tardiamente, alguns anos após a menarca.
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| Já que não está vinculada a causa orgânica, o que causa a dismenorréia primária? |
Normalmente, o sintoma doloroso é devido à secreção exagerada de prostanóides e/ou eicosanóides pelas células endometriais, levando a contração uterina irregular e conseqüente isquemia, ocasionando a dor.
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| Qual a conduta inicial frente a adolescente com queixa de cólica menstrual? |
Inicialmente devemos, por meio de anamnese criteriosa e exame físico minucioso, procurar eventuais causas orgânicas. Descartada afecção pélvica, deve-se prescrever antiinflamatório não hormonal dois ou três dias antes do início do fluxo menstrual, visando o bloqueio da síntese de prostaglandinas. Caso não haja sucesso, incentivamos o uso de anticoncepcionais hormonais com o intuito de levar a paciente a anovulação. Em caso de insucesso, deve-se reavaliar a possibilidade de doença orgânica.
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| Por quanto tempo devo investir no tratamento clínico inicial antes de indicar propedêutica avançada para o diagnóstico de doença pélvica? |
Acreditamos que, se após seis meses de antiinflamatório não hormonal (AINH) e/ou anticoncepcionais hormonais não houver diminuição acentuada do sintoma, a possibilidade de afecção pélvica é alta, devendo então, individualizando cada caso, avançar na propedêutica.
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| Existem outros medicamentos que podem ser utilizados no tratamento da dismenorréia? |
Alguns trabalhos mostram que o verapamil e a nifedipina, por serem bloqueadores do canal de cálcio, podem diminuir a contração uterina e com isso diminuir os sintomas. A vitamina B6 e a E, inicialmente testadas, não mostraram, em ensaios clínicos, terem eficácia maior do que a medicação placebo.
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| Como a característica do ciclo menstrual pode auxiliar na diferenciação entre a dismenorréia devido a enfermidade orgânica da essencial? |
A síntese de prostanóides é decorrente da queda da progesterona ao final do ciclo, portanto, a presença de ciclos anovulatórios, nos quais não há formação do corpo lúteo e, conseqüentemente, não se encontra progesterona, sugere a presença de doença orgânica.
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| Como faço para identificar um ciclo anovulatório? |
Visto que não há a formação do corpo lúteo e, conseqüente, produção de progesterona, o ciclo se torna irregular, normalmente longo, ou seja, espaniomenorrêico (mais de 40 dias de intervalo entre as menstruações).
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| Qual a característica clínica que nos permite diferenciar dismenorréia primária e secundária? |
A primária freqüentemente é referida em cólicas no hipogástrio, com irradiação para região lombar e inicia-se no período pré-menstrual, sua intensidade diminui ao longo dos anos e, principalmente, após gestação. A secundária, além de ser referida no hipogástrio, pode acometer outras áreas da pelve e do abdome, principalmente, fossas ilíacas e a irradiação costuma ser mais ampla. A principal vicissitude é que a sua intensidade, via de regra, aumenta a cada catamênio.
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| O que é dismenorréia membranácea? |
Em alguns casos extremos, após intensa dor em cólica, a mulher expele, via vaginal, verdadeiro molde da cavidade uterina.
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| Quais podem ser as causas orgânicas de dismenorréia em meninas logo após a menarca? E qual o principal exame de imagem a ser realizado nesta situação? |
Normalmente são as malformações uterinas. As mais freqüentes são: hímen imperfurado, útero bicorno com corno não comunicativo, septo transverso de vagina e agenesia de colo uterino. O exame mais sensível é a ressonância magnética de pelve.
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| Quais as principais afecções que podem levar a dismenorréia secundária? |
As principais enfermidades que podem levar a dismenorréia secundária são:
- da cavidade uterina: pólipos endometriais, leiomiomas submucosos ou corpos estranhos, dentre eles o DIU;
- da parede uterina: adenomiose, leiomiomas intramurais;
- do peritônio: endometriose.
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| A dismenorréia faz parte do escopo da síndrome de dor pélvica crônica? E qual é a definição de dor pélvica crônica? |
Define-se a dor pélvica crônica aquela que acomete o hipogástrio ou fossas ilíacas, continuamente ou de forma intermitente, podendo ser cíclica ou não, com duração maior que seis meses e cuja intensidade interfira nas atividades do cotidiano da paciente. A dismenorréia pode constituir-se em dor pélvica crônica.
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| Quais são os principais fatores predisponentes de dor pélvica crônica? |
Em metanálise que compilou 122 trabalhos, os seguintes fatores associaram-se a esta queixa:
- emocionais: ansiedade e depressão, antecedente de abuso sexual;
- alterações no catamênio: hipermenorragia, irregularidade menstrual e síndrome pré-menstrual;
- exposição a alguns fatores ambientais: frio excessivo, produtos químicos e sedentarismo;
- dados demográficos: idade menor que 30 anos, raça branca, menor tempo de estudo e nível sócio-econômico menor.
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| Qual a prevalência estimada da dismenorréia? Qual a faixa etária mais acometida? |
Há diversos trabalhos epidemiológicos acerca da prevalência da dismenorréia, nos quais a prevalência variou de 16,8% a 81%. Estima-se que cerca de 70% das mulheres vão apresentar a queixa em algum momento de sua vida reprodutiva e 10% a terão de forma tão intensa que referirão deterioração importante da qualidade de vida devido a queixa. O sintoma pode incidir em qualquer idade da menacme, porém, seu pico ocorre entre 15 e 25 anos.
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| Quais são outros sintomas que também devem ser detalhadamente avaliados frente à queixa da dismenorréia? |
A dismenorréia pode ser manifestação clínica isolada ou ser parte do quadro clínico de algumas moléstias; desse modo, questionamentos de âmbito ginecológico, principalmente dispareunia (dor ao coito) e infertilidade, devem ser pormenorizados. Outras enfermidades de origem em outros sistemas também podem recrudescer durante o fluxo menstrual e assim embaraçar o diagnóstico; desta forma, queixas urinárias, intestinais, vasculares e até emocionais também devem ser consideradas na anamnese.
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| Por que o diagnóstico precoce é importante? |
A dismenorréia é condição desabilitante e, portanto, quanto antes a paciente receber atenção e tratamento, menores serão os estigmas deste padecimento. Além disso, dado que a queixa pode ser parte do quadro clínico de uma doença orgânica, a ação sobre a causa da dor tem potencial em evitar ou ao menos apaziguar outras seqüelas como a infertilidade, dispareunia ou alterações menstruais.
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| Dentre as causas orgânicas de dismenorréia qual a mais relevante? |
A endometriose é, sem sombra de dúvida, a moléstia mais prevalente dentre as que causam dismenorréia, levando freqüentemente a deterioração acentuada da qualidade de vida das portadoras. Estima-se que 10% de todas as mulheres vão receber este diagnóstico durante o menacme.
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| Em mulheres de qual faixa etária devemos pensar em endometriose? |
O diagnóstico é realizado em mulheres na terceira e quarta décadas de vida, levando, de forma equivocada, a acreditarmos que esta é a faixa etária de incidência; entretanto, a moléstia inicia-se na adolescência. O tempo médio entre o início dos sintomas e o diagnóstico e, conseqüente, a terapêutica é de oito anos. O negligenciamento da doença e a demora no estabelecimento de intervenções terapêuticas fazem com que ela progrida, levando a conseqüências nefastas, como infertilidade e dor pélvica crônica de difícil manuseio.
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| Como podemos antecipar o diagnóstico da endometriose? |
Sempre ao atender adolescentes com queixa de dismenorréia pensar, em primeiro lugar, na endometriose. A queixa de dismenorréia não deve, de forma alguma, ser negligenciada. Frente a suspeita clínica importante, deve-se instituir medidas visando prevenir a progressão da doença.
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| Como a dismenorréia interfere na qualidade de vida? |
A intensidade da dor, que habitualmente perdura por um a três dias, remete a perda da produtividade, até a incapacidade de executar atividades corriqueiras. Ainda tem que se considerar o caráter desagradável da dor que, ao ser previsível, torna a síndrome pré-menstrual mais intensa. Este conjunto configura uma situação predisponente a conseqüências emocionais como ansiedade e depressão.
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| A inervação sensitiva da pelve é interferida no sistema nervoso central? E como se dá esta ingerência? |
Sim, os nervos sensitivos (aferentes) enviam seus estímulos para trato espino-talâmico, que consiste de fibras do quadrante ântero-lateral, que retransmitem para neurônios do tálamo. Esta comunicação é modulada por sistema de fibras que descem do cérebro para a medula vertebral e este controle é definido de “portão”, que ao atuar influencia a intensidade da percepção dolorosa.
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| Como os estímulos de outras estruturas podem irradiar a dor para pelve e desse modo confundir o diagnóstico etiológico da dor pélvica crônica? |
Na medula vertebral, núcleo solitário, núcleo da coluna dorsal e tálamo ocorrem convergência anatômica de fibras sensitivas somáticas (pele e músculo) com viscerais. As evidências apontam a existência de afluência fisiológica desta inervação, cujo sistema cruzado incide também entre os órgãos viscerais e desta forma os estímulos no trato urinário, intestinal e até mesmo da pele podem ser referidos nos órgãos genitais.
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| O retardo do tratamento da dor pode acarretar piora da sensação dolorosa por estímulo neurológico? |
Foi descrito o advento de “sensibilização central”, ou seja, o estímulo não entra pela via aferente da dor, mas, como um discreto, porém, longo estímulo nociceptivo da periferia, o qual dispara um gatilho que sensibiliza tanto a medula quanto o cérebro e, desse modo, a sensação ganha força e é interpretada como sendo maior. Esta distribuição da sensibilização é também denominada de “memória da dor” ou “traço de dor”.
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| Quais são as principais etiologias de dor pélvica crônica? |
Endometriose, aderências pélvicas, congestão pélvica, a qual inclui as varizes pélvicas, síndrome do cólon irritável, cistite intersticial crônica, alterações ósteo-musculares, fibromialgia e somatização.
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| Pode a dismenorréia acarretar dores musculares? |
Sim. Ao considerar que a dor pélvica crônica, pela sua duração, pode acarretar posturas viciosas, acompanhadas de contraturas em alguns feixes musculares e fraqueza em outros e que, mesmo após melhora da queixa primária, estas alterações podem persistir, fica evidente a importância da dismenorréia na gênese das dores musculares.
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| Qual a importância da anamnese na elucidação etiológica da dismenorréia? |
A anamnese é o ponto de partida para a investigação e para melhor entendimento do contexto da paciente. Sobre este propósito, deve-se contemplar não apenas a queixa clínica, mas também todas as suas conseqüências, ou seja, o âmbito físico, emocional, conjugal, familiar e profissional da paciente, dado a associação de outras co-morbidades, dentre elas, ansiedade e depressão.
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| Qual a importância do exame físico na elucidação etiológica da dismenorréia? |
Visto que a imensa maioria das etiologias acomete os órgãos internos, o exame físico de toque bimanual, que aprecia a mobilidade uterina, a intensidade da dor, infiltração dos paramétrios posteriores (ligamentos útero-sacros), abaulamento do fórnice posterior da vagina e até acometimento do reto é a análise mais relevante do exame físico. Porém, cumpre reiterar que a avaliação osteomuscular pode revelar alterações posturais, ligamentares e musculares que podem ser a causa da queixa.
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| Qual a importância dos exames laboratoriais na elucidação etiológica da dismenorréia? |
Do ponto de vista prático, os exames laboratoriais auxiliam especificamente na investigação de determinada etiologia e é pouco útil genericamente, portanto, os eles devem ser indicados consoante à suspeita clínica inicial. Diante da suspeita da endometriose, o CA-125 é amplamente solicitado, muito mais por não haver outro exame laboratorial que subsidie o diagnóstico do que pela sua sensibilidade e especificidade, que são baixas.
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| Qual a importância da ultra-sonografia na elucidação etiológica da dismenorréia? |
A ultra-sonografia endovaginal é muito útil na investigação de leiomiomas uterinos, cistos ovarianos e até varizes pélvicas. A avaliação das vias urinárias pela ultra-sonografia pode revelar cálculos; porém, em outras afecções como a endometriose e aderências pélvicas, ela é pouco útil.
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| Qual a importância da ressonância magnética na elucidação etiológica da dismenorréia? |
Este exame tem sido cada vez mais preciso e com capacidade de fornecer imagens mais nítidas. É exame de grande valia no diagnóstico da endometriose infiltrativa, de miomas uterinos e de cistos ovarianos.
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| Qual a importância da laparoscopia na elucidação etiológica da dismenorréia? |
A laparoscopia é o melhor exame para avaliação do peritônio pélvico e, portanto, é considerada padrão ouro no diagnóstico da endometriose e de aderências pélvicas. Assim, não obstante ser um exame invasivo, pode ser indicada diante da inconclusão diagnóstica dos outros subsídios.
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| Quais são outros exames que podem contribuir no diagnóstico da etiologia da dismenorréia? |
Existem etiologias da síndrome de dor pélvica que são pouco freqüentes e se manifestam mais proeminentemente na fase menstrual podendo ser reveladas por exames como a cistoscopia, no caso da cistite intersticial crônica, o exame protoparasitológico de fezes, em algumas verminoses, assim como outras doenças intestinais a serem investigadas com colonoscopia.
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